Não é uma metáfora futurista. É o que está a acontecer agora na internet.
Em 2024, pela primeira vez na história do motor de pesquisa mais usado do mundo, mais de metade das pesquisas no Google terminaram sem que o utilizador clicasse em qualquer resultado. A loja está aberta. A montra está impecável. Simplesmente, as pessoas já não chegam à porta.
O que é uma zero-click search — e porque está a mudar tudo
Uma pesquisa zero-click é aquela em que o utilizador obtém a resposta directamente na página de resultados do Google — sem clicar em nenhum link, sem visitar nenhum website. O Google fornece a resposta. O utilizador fecha o ecrã. O teu site nunca chegou a existir para ele.
Este fenómeno não é novo, mas acelerou de forma dramática em 2024 e 2025. A causa principal tem um nome: AI Overviews (anteriormente chamados de Search Generative Experience, ou SGE). São os resumos gerados por inteligência artificial que o Google passou a colocar no topo de cada página de resultados — antes de qualquer link orgânico, antes de qualquer anúncio pago.
A evolução foi gradual mas a aceleração foi súbita. Durante quase uma década, a lógica era simples: escreves bom conteúdo → o Google coloca-te bem → as pessoas clicam → tu vendes. Em 2024, esse mercado mudou de direcção.
Os números que nenhuma empresa pode ignorar
Os dados disponíveis não deixam margem para interpretações optimistas.
| 58% das pesquisas no Google terminam sem clique externo SparkToro / Datos, 2024 — baseado em comportamento real de dezenas de milhões de utilizadores |
Um estudo da SparkToro em parceria com a Datos, baseado no rastreamento real do comportamento de dezenas de milhões de utilizadores durante 21 meses, concluiu que para cada 1.000 pesquisas no Google, apenas 360 cliques chegam a websites externos. Em termos práticos: 64% do tráfego potencial fica retido dentro do próprio Google.
| Indicador | Valor | Fonte | Ano |
| Pesquisas sem clique externo | 58,5% | SparkToro / Datos | 2024 |
| CTR com AI Overview presente | 8% | Pew Research Center | 2025 |
| CTR sem AI Overview | 15% | Pew Research Center | 2025 |
| Queda no 1.º resultado orgânico | -34,5% | Ahrefs (300k keywords) | 2024/25 |
| AI Overviews em % das pesquisas | 19,88% | Semrush | maio 2025 |
Fonte: SparkToro/Datos (2024); Pew Research Center (julho 2025); Ahrefs (2024/25); Semrush (maio 2025).
“Quando aparece um AI Overview, os utilizadores clicam em resultados externos apenas 8% das vezes, contra 15% quando não há IA.” — Pew Research Center, julho 2025
A Semrush confirmou a tendência: em maio de 2025, os AI Overviews eram activados em quase 20% de todas as pesquisas no Google. E a Ahrefs, após analisar 300.000 keywords, calculou que quando um AI Overview aparece, o click-through rate do primeiro resultado orgânico cai 34,5%.
Para contextualizar: o primeiro resultado orgânico do Google era, até há pouco tempo, o lugar mais valioso na internet. Agora, esse lugar perdeu um terço do seu valor. E a tendência é de aprofundamento.
O caso Chegg: quando o canário da mina caiu
Há histórias que funcionam como alertas precoces. A história da Chegg é uma delas.
A Chegg é uma plataforma norte-americana de apoio académico — resumos, exercícios, respostas a perguntas de estudantes. Durante anos, foi a prova de que conteúdo de qualidade em formato de resposta directa trazia tráfego e receita. O modelo funcionava exactamente porque respondia bem a perguntas específicas.
Quando o ChatGPT surgiu com capacidade para responder às mesmas perguntas de forma gratuita e instantânea, o tráfego da Chegg colapsou. A empresa reportou uma queda de 49% no tráfego orgânico num período de 12 meses. A capitalização bolsista sofreu perdas expressivas, e a Chegg avançou com processo judicial contra o Google por utilizar o seu conteúdo para treinar sistemas de IA que agora competem directamente com o seu negócio.
A Chegg não fez nada de errado. Simplesmente foi o primeiro sector onde a IA atingiu maturidade suficiente para substituir a pesquisa tradicional. Outros sectores virão a seguir.
A escala do problema: o que prevê a Gartner
Em fevereiro de 2024, a Gartner — uma das empresas de investigação tecnológica mais influentes do mundo — publicou uma previsão que circulou por todas as redacções de marketing digital: o volume de pesquisa tradicional cairá 25% até 2026, substituído por chatbots de IA e agentes virtuais.
| -25% previsto no volume de pesquisa tradicional até 2026 Gartner, fevereiro de 2024 |
A previsão não é especulação. É baseada nos padrões de adopção que a Gartner monitorizou nos 12 meses anteriores à publicação, incluindo a explosão do uso de ferramentas como ChatGPT, Perplexity, Google Gemini e Microsoft Copilot como substitutos de pesquisa.
O que a Gartner chamou de “motores de resposta substitutos” são precisamente estas ferramentas: sistemas que o utilizador consulta directamente, sem passar pelo Google, sem gerar impressões, sem criar oportunidade de clique. A pergunta vai directamente para a IA. A IA responde. O ciclo fecha-se sem que nenhum website tenha participado.
O que muda na prática para empresas portuguesas
O mercado português tem características específicas que moderaram, até agora, a velocidade desta mudança. O uso de ferramentas de IA generativa em Portugal e no Brasil cresceu mais lentamente do que nos mercados anglófonos. Os AI Overviews do Google em português europeu têm cobertura inferior à versão inglesa. A literacia digital em matéria de ferramentas de IA é ainda emergente.
Mas nenhum destes factores é uma protecção estrutural. São atrasos, não imunidades.
A adopção de ferramentas como ChatGPT e Perplexity entre profissionais liberais, estudantes universitários e gestores de empresa em Portugal cresceu de forma acelerada desde 2023. O Copilot da Microsoft está integrado no ecossistema Office 365, amplamente utilizado por empresas portuguesas. E o Google Gemini está disponível em português europeu com qualidade crescente.
O impacto no tráfego de sites portugueses não é ainda comparável ao dos mercados anglófonos. Mas a direcção é inequívoca.
Perguntas e Respostas
Quais os negócios mais expostos ao risco de zero-click search?
Os negócios com maior exposição são aqueles cujo modelo de negócio depende directamente do tráfego orgânico gerado por pesquisas informacionais — isto é, pesquisas em que o utilizador procura aprender ou esclarecer uma dúvida, não necessariamente comprar. Blogs de conteúdo, portais de notícias, plataformas educativas, sites de saúde e bem-estar, guias de viagem e qualquer site que monetize pageviews por publicidade. Nos sectores onde a resposta à pesquisa pode ser dada em duas frases, o risco é imediato.
E para quem vende produtos ou serviços?
O impacto é diferente mas não inexistente. A pesquisa transaccional — “comprar sapatos online”, “agência de marketing digital Lisboa” — ainda gera cliques, porque a IA ainda não substitui a decisão de compra. Mas o percurso de compra começa frequentemente com pesquisa informacional. Se a IA responde a estas perguntas sem mencionar a tua empresa, perdeste a oportunidade de ser considerado — muito antes de o utilizador estar pronto para comprar.
Da visita ao clique para a presença na resposta
A mudança de paradigma que está a acontecer não é a morte da pesquisa. É a morte do modelo de negócio que assentava no clique como unidade de valor.
Durante 25 anos, a lógica era simples: escreves bom conteúdo → o Google coloca-te bem → as pessoas clicam → tu vendes. Esta lógica ainda funciona parcialmente. Mas a tendência é clara e os dados são consistentes: o clique está a tornar-se progressivamente mais raro, mais caro e menos garantido.
O novo paradigma não é definido pela posição no ranking — é definido pela presença na resposta. A pergunta deixou de ser “estou na primeira página?” e passou a ser “quando alguém pergunta ao ChatGPT sobre o meu sector, a minha empresa é mencionada?”.
| Três conclusões para guardar • O tráfego orgânico está a mudar de natureza. Não vai a zero — mas vai a um lugar diferente. O destino são motores de resposta, não páginas de resultados. As empresas que perceberem isto primeiro têm vantagem competitiva real. • O risco não é igual para todos. Negócios que dependem de tráfego informacional estão na linha da frente. Negócios transaccionais têm mais tempo — mas o percurso do cliente começa sempre com informação. • A adaptação existe e é accionável. Não é necessário abandonar o SEO. É necessário complementá-lo com estratégias orientadas para a visibilidade generativa. A janela de vantagem competitiva está aberta — mas não indefinidamente. |
Este artigo é o primeiro de uma série sobre AEO, GEO e a nova fronteira da visibilidade digital. A e-branding.pt é uma agência de desenvolvimento web e marketing digital especializada em estratégias de presença online para empresas portuguesas e lusófonas.
Fontes: SparkToro / Datos (2024); Pew Research Center (julho de 2025); Gartner (fevereiro de 2024); Semrush (maio de 2025); Ahrefs (2024/2025); Search Engine Journal (2025).
